UMA PERSPECTIVA DOS INFERNOS

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Há um ditado espanhol que atribui o conhecimento do diabo à sua idade, e não propriamente à sua condição demoníaca. O leviatã, nessa história em particular (se é que o maligno seja um só) deve ter sido muito jovem, infantil ainda, a julgar pelo truque utilizado por um astuto arquiteto alemão chamado Jorg von Halsback.

Esta história, conhecida ou recordada por poucos, começa no ano 1468 em Munique. Naquele ano, Jorg von Halsbach havia planejado realizar um de seus projetos mais ambiciosos: a catedral da cidade, que seria mais tarde conhecida como, Fraunkirche.

A possibilidade de o trabalho não ser concluído dentro do prazo, devido a circunstâncias mais ou menos imprevisíveis, atormentou tanto o arquiteto e construtor, que não hesitou em recorrer ao próprio belzebu para evitar qualquer tipo de contratempo.

Lúcifer aceitou o acordo, embora, com uma condição: o templo não deveria ter janelas. Um lugar sem luz natural, certamente não agradaria seu eterno e sagrado antagonista, o rival, Rei do Céu.

Satanás cumpriu sua promessa, e em pouco mais de vinte anos, a catedral foi concluída; uma conquista para a época. Para consolidar a justificativa de que Jorg von Halsbach também havia feito sua parte, o demônio personificou-se e apareceu em frente a nova igreja. O arquiteto, então, o acompanhou até um ponto em frente à entrada principal. Não se via por aquela perspectiva, nenhuma janela.

O diabo saiu satisfeito. "Rei do inferno 1- Rei do céu, 0"; deve ter pensado a besta quando viu aquela catedral hermeticamente fechada. Entretanto, toda aquela euforia se transformou rapidamente em ira. E aconteceu assim que percebeu o demo, que o arquiteto o colocara estrategicamente no único ponto da construção em que as colunas o impossibilitavam de enxergar as janelas laterais do edifício. Para o diacho e chifrudo anjo das trevas, ficou evidente o blefe de Jorg von Halsbach.

Porém, naquelas alturas da história, o templo religioso já havia sido consagrado. Mas, como um cão-tinhoso que não esquece e nem perdoa provocação, o satânico vingou-se. E foi na própria catedral, onde uma pegada em um dos pisos na entrada principal, lembra que uma vez o próprio capeta ali esteve. E quem sabe, talvez um dia, decida voltar para uma caminhada, um pouco mais longa!

Dentre tantas considerações plausíveis que poderíamos transferir do texto acima, para o nosso cotidiano e, especialmente para as eleições municipais que se aproximam, uma, obviamente incômoda, se destaca. Quando tentarem nos prometer, soluções mirabolantes e repletas de facilidades distantes de qualquer evidencia lógica, enxerguemo-las sob a nossa perspectiva. Sob a nossa lógica! Jamais sob a perspectiva de quem quer que seja, muito menos de quem nos ofereça corriqueiras banalidades iguais a farofa de pastel pisado, pois, corremos todos o risco de sermos trapaceados, e de pagarmos juntos a mesma conta por longos quatro anos! Não queremos olhar para as pegadas deixadas por maus legisladores e gestores públicos, e lembrarmos de suas ineficientes atuações, ou queremos!!