Quem abre a boca se equivoca

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

Ver artigos

Nos tempos analógicos, a televisão era uma arma poderosíssima que fazia vibrar em emoções os moradores dos mais longínquos recantos do planeta.  O impacto que tinha sobre as pessoas era tal, que uma criança de hoje, acostumada a milhares de canais e telas simultâneas competindo entre si, não poderia imaginar.

Aparecer na TV, impunha muito mais glamour do que atualmente. Porém, as pessoas que viveram àquela época, dizem que os convidados daquelas programações eram mais livres e espontâneos. Eles não tinham a preocupação em comedir-se quanto as palavras proferidas porque sabiam que o vento as levaria embora. Em vez disso, hoje, cada frase pode se tornar viral e assombrar seu autor por anos.

Se alguma coisa que você disser puder ser usada contra você, a atitude assumida por quem diz algo em público é a de um prisioneiro cujos direitos já foram lidos. Quem calcula muito o seu discurso, acaba no deserto da nulidade.

Você não pode dizer nada interessante, engraçado ou espontâneo, se o seu público não for excessivamente indulgente com as gafes, inconveniências, ou tolerante para piadas desajeitadas.

Com este cenário, apenas os suicidas, demagogos políticos e desesperados, podem tomar a palavra com a liberdade necessária. E aí todos nós perdemos, porque deixamos as discussões públicas nas mãos de oportunistas, fanáticos ou conhecidos cretinos sedentos por ocupar algum espaço midiático com fins políticos.

O grego antigo tem um termo, mnesikakein, que se refere ao vício de empunhar memórias como se fosse uma arma. Culpar alguém por coisas ditas ou feitas no passado, era um truque mesquinho na clássica Atenas, um artifício que espalhou o debate público, conforme o brilhante ensaio Breviário do Esquecimento, de Lewis Hyde.

Não é necessário promulgar leis de “esquecimento”, como fizeram os atenienses após a ditadura, ou, a Tirania dos Trinta. Bastaria colocar em prática que, “quem tem boca se equivoca”.

A Tirania dos Trinta (em grego ο? Τρι?κοντα), em Atenas, na Grécia antiga, foi um governo composto por trinta magistrados chamados de tiranos e que sucedeu à democracia ateniense ao final da Guerra do Peloponeso, em 404 a.C.

Conta-se que os Trinta destruíram a muralha de Atenas como condição imposta pelos éforos, lideres espartanos, para a rendição da cidade, assim como pretendem, por aqui, destituir um Presidente da República destruindo a Constituição, por não aceitarem o resultado das eleições pelos seus chefes.

Logo depois, os atenienses liderados por Lisandro, resolveram retomar Atenas, porém, os Reis de Esparta, invejosos por Lisandro capturar Atenas duas vezes, decidiram que um deles, Pausânias, iria dissuadir os atenienses de se revoltarem.

Logo em seguida, os atenienses se revoltaram novamente e Pausânias foi “censurado”, enquanto Lisandro, louvado em Esparta. Segundo Pausânias, Trasíbulo derrotou os Trinta Tiranos com um exército de sessenta homens, e, depois da vitória, fez com que os atenienses, que estavam divididos em várias facções, esquecessem de tudo e se reconciliassem.

Por aqui, disseram bastar um Jeep e um Cabo, mas, as facções unidas nada esquecem. Assim, Pausânias, voltou para Esparta decidido a não aceitar o despotismo de homens sem caráter.

Partindo da premissa de que, “quem tem boca se equivoca”, pode-se avaliar o estado de censura e despotismo a que estamos submetidos pelos nossos Tiranos. Para estes, quem abre a boca, precisa necessariamente estar equivocado!

Diante do excesso de poder individual na Corte, é de se concluir de que havia nos tempos do Regime Militar, aqui no Brasil, mais liberdade de expressão do que hoje, em tempos “democráticos”. Que o diga, o jornalista investigativo Oswaldo Eustáquio. A história, tal como nossa mãe, repete sempre aquilo que já esquecemos, ou, ainda não aprendemos! De resto, isto tudo, passaria de um grande equívoco?