PANDEMIA: FICÇÃO OU REALIDADE?

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Não, não é que a realidade supere a ficção. É que a realidade talvez não seja elegante nem estilosa e, para traduzi-la pela gíria do boxe, ela gosta de nos bater abaixo da cintura em vez de jogar limpo com diretos no queixo. Em vez de se tornar dramática, a realidade se manifesta para nós de maneira brutal e feroz, impactando-nos de maneira muito diferente da imaginação. Não há tiroteios ou explosões como as do cinema, com ritmo, arte e coreografia, apenas mortes diante do caos que parece não ter sentido. A ficção brinca com a cronologia e a acomoda às necessidades mais expressivas, embora a realidade sem escolha, faça o tempo correr na velocidade de sempre. As pessoas geralmente entendem a realidade como se fosse uma narrativa, com significado e estrutura dramática, porque do contrário, poderíamos enlouquecer. Mas isso, não significa que as coisas acontecem como nas histórias.

Um exemplo disso é a epidemia, ou agora, uma pandemia.  Em vez de sair de casa, e pela janela ver a "anarquia" nas ruas com hordas de zumbis se movendo ritmados pela loucura, e paramilitares que descem de helicópteros para salvar o mocinho ou a mocinha, encontraremos na cidade vazia, os sistemas de saúde sobrecarregados, o pânico nas compras de papel higiênico e produtos de limpeza e, acima de tudo, o medo. A fobia social. Os únicos e reais heróis serão os médicos, enfermeiros, profissionais de saúde e farmacêuticos, enfim, insones e exaustos. E muitos deles, estarão ocupados por dias e dias apenas para acabar infectados também. Um desastre.

Para o cidadão comum, a avalanche de notícias sobre o avanço do Covid-19 (o famoso novo Corona vírus) é um fato alarmante, mas, ao mesmo tempo paralisante, porque não há narrativa possível para explicá-lo. Alguns de nós, talvez, desejarão entrar em casa, colocar três fechaduras na porta e sair quando tudo acabar. Outras reações populares parecerão dignas de piada! As compras de “pânico” e algumas reações piores, como agarrar a família e correr de uma área comprometida para outra menos infectada, que ajudará somente a piorar e espalhar o caos. Enfim, é mais fácil criticar o medo dos outros do que superar os nossos.

Quem não se importaria, se permanecer em quarentena, com o risco de não ter à mão os alimentos, medicamentos ou produtos de higiene que possam ser necessários? Quem não seria tentado a fugir e não parar até encontrar um lugar que pareça seguro? Antes de dar respostas categóricas e nos glorificarmos pelo quão conscientes, realistas e sensatos somos, vamos pensar um pouco: nossa civilização passou décadas focada no conforto sem qualquer sacrifício maior, e se isolar voluntariamente por um mês, poderia parecer-nos neste momento, algo desumano? Os seres em pânico são realmente incompreensíveis? E se somarmos a isso que há um sério risco envolvido, e por mais que as estatísticas nos digam que 80% dos casos de Covid-19 são leves, deve-se reconhecer que manter a calma, não é a coisa mais simples do mundo.

Na ficção, especialmente nas populares, é essencial que o protagonista realize ações decisivas que lhe permitam resistir e / ou resolver um problema. Mas aqui, também a realidade é diferente. Na vida real, podemos apenas esperar, seguir algumas instruções básicas, entender que não somos protagonistas de filme algum, e que fazemos parte de uma máquina social que requer o acúmulo de milhões de fatos concretos para que a situação seja resolvida e que nosso único horizonte de ação, é fazer bem a pequena parte que nos corresponde. E apesar de se relegar a ficção, é a realidade nua e crua, nossa unica opção.