O outro lado da ponte

Por Sônia Pillon

Era final de tarde naquele gélido dia de inverno. Jeanne caminhava devagar em direção à ponte, absorta em pensamentos. Mirou o rio de águas turvas e calmas, se atendo à vegetação ribeirinha e às aves aquáticas que rumavam até a outra margem.

Enquanto iniciava a travessia, Jeanne sentia um aperto no peito. Nos últimos dias, havia feito uma retrospectiva de vida. Buscou a própria voz no silêncio interior. Acertos, erros e aprendizados.

Nada do que se vive é em vão”, dizia sempre para si mesma. Lembrou com saudade da primeira infância, quando o mundo parecia colorido como nos contos infantis, e do choque de realidade que teve depois.

Recordou a adolescente rebelde que foi, quando passou a questionar e a contestar o mundo, a engrenagem do “sistema”. De como se sentia insegura com os desafios que teve de enfrentar para concluir os estudos e se fazer respeitar na profissão. Queria mudar o mundo, levantar a bandeira da justiça. É claro que as decepções iriam acontecer! Nada foi fácil.

Lembrou das mudanças cuidadosamente planejadas e dos acontecimentos inesperados que a fizeram sentir de cabeça para baixo. Da gangorra emocional que intercalava alegria e tristeza.

Jeanne rememorou também as conquistas e a imensa alegria que a maternidade trouxe. E assim, à medida que avançava os passos e se aproximava do fim da ponte, os acontecimentos mais marcantes vinham à sua mente.

Uma ponte sempre liga um lugar ao outro, uma situação à outra”... Seguindo essa analogia, Jeanne sentia uma certa aflição naquela hora. Ela ignorava o que iria encontrar na outra margem. Sentia como se estivesse prestes a ingressar em um túnel de olhos vendados. A única certeza é que estava encerrando um ciclo.

Jeanne finalmente alcançou o fim da ponte. Parou, olhou para trás rapidamente. Não havia ninguém. Soltou um suspiro. Depois respirou fundo e recomeçou a caminhar, hesitante. Em um esforço supremo, cruzou a fronteira. Se encheu de coragem e se lançou ao desconhecido. O passado ficou para trás.