O canto do tuiuiu

Por Sônia Pillon

Pensei que nunca mais voltaria para esse lugar. A mesma ponte longa de madeira, o mesmo céu, o mesmo deck à beira-mar, as mesmas garças agitadas e fugidias, com seus voos rasantes e largas asas... O mesmo mar calmo, o mesmo horizonte a perder de vista, o mesmo silêncio... Sem barco,
sem pescador, sem ninguém mais além de mim. Respirei fundo, tomada pela emoção. Era a natureza mais uma vez se mostrando preguiçosa e lânguida naquela manhã de domingo, premiada pela aparição bem-vinda do astro-rei, soberano absoluto daquela praia e de todos os seres que dele dependem. Porém, ao contrário da vez anterior, o vento não acompanhava seus raios e ainda era possível enxergar algumas poças da chuva formadas durante a chuvosa noite que antecedeu a luz do dia.

No trajeto de caminhar vagaroso que fiz do pátio da pousada até ali, ouvindo meus passos a cada estalar da madeira trabalhada, tive uma rara visão. Era o tuiuiu! Como não reconhecer as penas pretas e reluzentes do corpo, contrastando com a cabeça de vermelho tão vivo? O canto também era inconfundível.

Então, aproximei meu olhar lentamente, evitando gestos bruscos, e fiquei admirando e agradecendo ao universo por estar ali. Já haviam me dito que o tuiuiu era ave pouco vista naquele balneário, possivelmente por medo de predadores e de olhares curiosos, como o meu... Ele estava se equilibrando com os pés no topo da seca vegetação aquática, como um equilibrista. Ficou assim por uns trinta segundos mais ou menos, virando a cabeça
vermelha para um lado e para o outro, enquanto cantava. Era um canto nervoso, com olhar atento. Aquela ave parecia ainda decidir o que fazer, para onde ir. E eu ali, admirando aquelas penas bicolores, imóvel, sem coragem de acionar o celular para eternizar aquela imagem. Temia que ele,
incomodado, voasse correndo dali. Estiquei o tempo, aproveitei o momento.

Finalmente, o tuiuiu tomou a decisão, abriu as asas e saiu cantando na direção oposta dos meus passos. Segui trilhando a ponte até o deck. O horizonte continuava ali, sem as preocupações humanas, tão estranhas àquele mundo de águas calmas. Permaneci alguns minutos, tentando acalmar os pensamentos agitados naquele lugar calmo. Depois olhei a hora no celular. Era a hora de voltar. Mundo real esperava do outro lado da comprida ponte de madeira. Me enchi de coragem e voltei.