Liberdade de expressão ou impressão de liberdade?

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Ironicamente, um dos líderes políticos da esquerda brasileira, Ulisses Guimarães, encarnava com tenacidade absoluta o seu ideal de liberdade. Dizia ele, que: “A liberdade de expressão é apanágio da condição humana e socorre as demais liberdades ameaçadas, feridas ou banidas. A liberdade de expressão, é a rainha das liberdades”. Disse mais: “A censura é a inimiga feroz da verdade. É o horror à inteligência, à pesquisa, ao debate, ao diálogo. Ela decreta a revogação do dogma da falibilidade humana e proclama os proprietários da verdade”. Diante do horror que tinha pela opressão do poder durante sua jornada política, teceu esta pérola: “O poder absoluto, erigido em infalível pela censura, corrompe e fracassa absolutamente”.

 Já, diante das críticas, que à época, sofria da ex-situação, leia-se “extrema direita”, dizia Ulisses que “O MDB é como pão-de-ló: quanto mais bate, mais ele cresce. ” Parece que já ouvimos essa frase, ironicamente colada a um certo Presidente da República por um certo empresário. Historicamente, o MDB de Ulisses soube conduzir com galhardia e convicção os ideais libertários, antes e durante a formulação da Constituinte de 88. É bem verdade que, após sua morte trágica, o partido sofreu mudanças irreconciliáveis.

Em nosso país, temos essas três indescritíveis coisas preciosas: a liberdade de expressão, a liberdade de consciência e, obviamente, diante dos “fracassados editores da verdade”, a prudência de jamais praticar nenhuma delas. Liberdade de expressão é você ser livre para falar o que quiser, e eu ser livre para não querer te ouvir. Por outro lado, as pessoas gostam do ideal de liberdade de expressão até o momento em que começam a ouvir aquilo que não gostariam que dissessem a respeito de si mesmas, mas, esquecem que a liberdade do politicamente correto, é a expressão máxima da incompreensão. Desta forma, sua posição é válida, desde que esteja de acordo com a minha. A escritora britânica, Evelyn Beatrice Hall, teceu uma das frases mais icônicas sobre a liberdade de expressão, utilizada corriqueiramente nos manuais libertários. Disse ela: “Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”.

Porém, temos realmente nossas liberdades? Quem garante nossa livre expressão, já que a constituição de Ulisses foi vergonhosamente, rasgada? Tudo mudou, e hoje, me vejo nos anos 70!  A Censura saiu do antigo DOPS e instalou-se no STF. A grande ironia, é que hoje, os direitistas que estão do lado de cá do balcão, servem-se de poemas escritos por oprimidos à exemplo de Eduardo Alves da Costa, autor do poema “No caminho com Maiakovsky”, que se tornou um símbolo mundial da luta pelos direitos humanos, pela democracia, e pela liberdade de expressão. Na verdade, o poema é um libelo, ou uma acusação contra os generais que, supostamente, torturavam jovens que acreditavam, olhe aí novamente a ironia, em um país democrático. O que temos hoje, não são tempos estranhos, mas sim, estranhas intenções no sentido de preservar lealdades mais importantes que lealdades pessoais!

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos à luz do dia e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada”.