Dicionário de palavras ausentes

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Consegui dormir tarde da noite passada.

Os cronobiologistas, cientistas que investigam o ritmo biológico humano, alertam que, toda vez que acendermos a luz da cama, ou olharmos a tela do celular que fica na mesinha de cabeceira, estaremos consumindo um medicamento que prejudica o descanso - serotonina. Com isso, sonhei que estava perdendo as palavras e, quando acordei, aquela inquietação se revelou como uma metáfora do que foi 2020.

Se daquele ano a gente se despedisse de um livro, haveria páginas inteiras em branco. A linguagem é um tecido vivo com uma capacidade extraordinária de reparar suas rupturas, mas, a evolução vertiginosa e tresloucada desta crise sanitária nos obrigou a testar seus limites, a descobrir suas lacunas.

Às vezes, nos resignamos ao silêncio, senão à gagueira, e com os nossos silêncios, compilamos um Dicionário de palavras ausentes que nos faltou contar - e assimilar em tempo real - a complexidade de um alerta de saúde que iria além do seu alcance para atingir em todos os aspectos, a vida cotidiana.

Se há alguns anos foi cunhado um termo para descrever a angústia devido à degradação ambiental e as mudanças climáticas (solastalgia), por enquanto não encontramos um neologismo - novos sentidos a palavras - capaz de aglutinar o estranhamento, a tristeza, a desconfiança, a compaixão ou o quebrantar resultante da atual pandemia.

Talvez, palavras como, “imensa restrição”, pudesse representar por si só, a espiral recente de fatos e emoções cada vez mais distante da realidade conhecida por uma geração inteira.

Na tela do computador, soou o alarme de e-mail. É uma oferta de voos com a imagem de uma praia em cores estonteantes. A máquina do desejo não descansa - nem é renovada.

É apenas e tão somente, uma simulação de normalidade, pré-óbvia, justamente quando as assessorias de imprensa estão ocupadas com a encenação da chegada das primeiras vacinas. As câmeras procuram os braços prontos para a picada da seringa, e os mercados reagem em alta, mas intuímos que nada pode e não deve ser como antes.

Com a imunidade de grupo, o sistema operacional será reiniciado com várias atualizações já integradas, embora no desktop continuem aguardando, agora mais volumosas, as mesmas pastas: "Mudanças climáticas", "violência de gênero", "desigualdade econômica", "emprego", "habitação", etc.

Ao recomeçar, surge a oportunidade de reconsiderar o caminho percorrido, aquele que conduziu ao impasse. A Alice de Lewis Carroll, perguntou ao gato sorridente de Cheshire, que caminho seguir. Ele respondeu que, se não importa onde quer chegar, não importa qual você deve seguir. Resumindo, para onde queremos ir?

Ver e compreender não são a mesma coisa. A maioria de nós olha para um copo sem entender que já está quebrado.

Um monge tailandês explicou a um psicoterapeuta americano assim: “Eu gosto deste copo, ele contém a água, admiravelmente. Quando o sol brilha, ele reflete a luz perfeitamente. Porém, para mim, já está quebrado. Se o vento o joga, ou eu o cutuco, ele cai e se estilhaça. Por isso, cada minuto com ele é precioso.”

Este 2020 nos fez ver, entender e até sentir esse paradoxo invisível: a única coisa permanente, é que tudo é transitório. Vamos apreciar o vidro antes de seu brilho quebrar contra o chão.