DIA DO TRABALHO OU DO TRABALHADOR?

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Primeiro de Maio. Dia do Trabalho ou do Trabalhador? Senão pela curiosidade, pouco importa, pois, a segunda opção precisa da primeira e a primeira da segunda, não é mesmo? Não havia pensado em analisá-lo. Não depois de ouvir de um plantonista de farmácia, que disse jamais deixar de trabalhar em feriados, tampouco no dia do Trabalho! Não via razão para que um país inteiro cometesse tamanha hipocrisia em relação ao lema Ordem e Progresso, tampouco cruzar os braços, ironicamente, em nome do Trabalho! Razoável ou não, motivei-me por esta perspectiva a revisitar esta história que teve início em Chicago nos EUA, onde, em 1º de maio de 1886, alguns milhares de operários foram às ruas reivindicar melhoria das condições laborativas, e com isso, fomentou-se greves em algumas cidades daquele país. Dias depois, conflitos entre policiais e operários com saldo negativo entre ambos, resultaram em mais violência. Assim, para homenagear unilateralmente aqueles que de forma estupida foram ceifados, a Segunda Internacional Socialista, um movimento criado pelo teórico socialista alemão Friedrich Engels, com a utópica intenção de opor-se à guerra na Europa, idealizou o Dia Internacional dos Trabalhadores. Engels empenhou-se para que o evento fosse comemorado no dia 1º de maio de cada ano, embora o feriado tenha sido decretado oficialmente a partir de 1933.

 

Aqui no Brasil, oficializou-se a data após a criação do decreto nº 4.859, sancionado pelo então Presidente Arthur da Silva Bernardes em 1924. Neste Decreto, influenciado por imigrantes europeus que em 1917 pararam o trabalho para reivindicar direitos, Bernardes estabeleceu a data como feriado nacional para que fosse destinado à “comemoração aos mártires do trabalho” (sic), e também, para a justa confraternização entre as classes operárias. Porém, nas décadas de 1930 e 1940, o então ditador Getúlio Vargas passou a utilizar-se politicamente da data para divulgar a criação de leis e benefícios trabalhistas, a exemplo do utópico salário mínimo, uma inconveniente necessidade que na verdade, apenas oficializou a pobreza e limitou a riqueza do trabalhador até os dias atuais. Utópico, porque foi criada pela visão míope de quem não considerou que as necessidades básicas como moradia, alimentação, saúde, vestuário, educação e lazer de uma família, são regidas pelas leis de mercado.

 

O caráter de protesto da data acabou redirecionado, assertivamente, para assumir viés comemorativo, com Vargas denominando-a de Dia do Trabalhador. Notadamente nas últimas décadas, essa expressão passou a ser polarizada em deferência ao decreto original. Assim mesmo, há quem considere essa opção mais assertiva, pois, faz referência ao trabalhador que de fato é o homenageado, embora empresários, profissionais liberais e donas-de-casa, sejam considerados distintos à categoria. Para algumas pessoas, ora pois, chamar a data de Dia do Trabalho em vez de, Trabalhador, não parece ser o mais adequado, porque ao mesmo tempo que o enfatiza, também o enaltece ao ponto de quase criminalizá-lo!

 

Enfim, queremos crer que por trás de um emprego, existe a determinação e o heroísmo de um corajoso empreendedor que movido por impulsos inexplicáveis e sem medir consequências, assume todo o risco para si e muitas vezes de sua própria família. Graças a ele, tanto o emprego como o local de trabalho estarão disponibilizados para que alguém o ocupe e retire dali o seu sustento. É obvio, que sem empreender, não haveria como empregar, embora dentre neocapitalistas e socialistas com seus fetiches discursivos de via única, se queira apenas receber do Estado sem nada contribuir. O fato de retirar do Estado sob o falso pretexto de redistribuir renda locupletando-se e repassando-a ao grupo de poder dominante, deixando aos pombos apenas o milho, já destruiu nações com consequências irreversíveis a elas próprias, vitimadas que foram, por tal arroubo populista. Em resumo, o ato de criar e produzir bens e serviços em troca de uma remuneração ou lucro, não seria salvo engano, o objetivo de quem trabalha? Ora bolas, que tenhamos todos nós trabalhadores, um ótimo “dia de distanciamento social! ”