COVID19 - DESDE UM QUARTO DE HOSPITAL

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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É difícil pensar em distancias quando dois grandalhões peludos estão te esfregando dos pés à cabeça para te deixar bem asseado para se sentar em uma poltrona de um quarto de hospital. Curtem tanto o seu trabalho, eu tampouco, sentado nessa invenção do demônio. Estou tão bem deitado, quase como em uma suíte de hotel, salvo as diferenças, já que lá não há tantos tubos e nem maquinário com ruídos constantes que me enchem o saco!

Me explica meu companheiro de quarto, que tem diploma de antropólogo ou algo assim, pois é evidente que ainda não o tenho, que estas distancias sociais das quais agora tanto falam, tem um nome, e que na disciplina de ciências, é denominada de “proxemia”.  Ao que parece, diferentes culturas podem ser estudadas dependendo de sua relação com a distância entre as pessoas, seja íntima, pessoal, social ou pública. Calcula-se desde a distância dos sussurros, até o mínimo de um metro que marca a prevenção do contágio, valendo para os bons amigos e para os que são somente conhecidos.

E, por falar em distância, eu tento me distanciar o máximo de toda essa questão do Corona vírus, mas o movimento de enfermeiras e médicos usando máscaras e luvas dificulta muito para mim. Também é difícil para mim, aceitar que o contato com meus entes queridos precise ser mediado por esses dispositivos de plástico, embora eu saiba que pareça ser a única maneira de frear esta praga. Isso, e um tal de gel hidro alcoólico viscoso, do qual parece que as pessoas se viciam, é hoje, o item mais vendido junto com o papel higiênico que se acumula nas prateleiras dos brasileiros.

O sabão cheira incomparavelmente melhor e parece ser igualmente eficaz. Uma invenção simples que torna nossa existência mais agradável e nos permite ficar a distâncias curtas, evitando odores desagradáveis. Além disso, é estéril e salvou inúmeras vidas, pois os médicos intuíram que era mais conveniente lavar as mãos antes de acompanhar os partos, e os militares começaram a usá-la para fazer assepsia das feridas dos soldados em guerra.

Outra dica que parece bastante útil para evitar uma maior disseminação da epidemia, parece não ser o uso da mão dominante para as tarefas diárias. Claro que nesse quesito, já tenho curso superior, uma vez que já venho treinando há cinco anos, pois um acidente vascular cerebral atingiu o lado direito do meu corpo. Pode-se dizer, então, que tenho uma mão esquerda bem treinada para situações assim, e agora, só posso esperar que nessa guerra, a bala do Corona vírus me atinja de raspão, ou melhor, nem isso!

Vemos como o vírus maligno está afastando grande parte da população idosa que acreditava ter passado os últimos dias instalados em residências onde minimizam a distância e a solidão. Pouco terá encorajado nossos idosos, os discursos de reis, presidentes ou ministros, a menos que eles tenham pego uma panela e uma colher para bater nela, usando, é claro, sua mão não dominante.

Tudo parece então, uma dramática espera. Alguns cientistas se aventuram a dizer que, daqui a 18 meses não haverá vacina disponível para distribuição em larga escala, embora se tudo correr mais ou menos bem, e eles também sobreviverem, em alguns meses, seremos capazes de esticar o pescoço, sair da toca e dizer um simples olá aos nossos amigos como se já fossem nossos conhecidos, e tratar nossos conhecidos, como se fossem um público participando de um ato oficial. No momento, estou contente por poder continuar escrevendo em casa, se possível, sem luvas ou máscara. Embora prometa lavar minhas mãos, principalmente a dominante, com frequência e um bom sabão.