CISNE NEGRO

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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A expressão, Cisne Negro ou Outlier (ponto fora da curva em português), é utilizado no mercado financeiro para se referir a eventos totalmente imprevisíveis e que possuem a capacidade de impactar a sociedade e o universo das finanças. Assim, o artigo de hoje, revisita o fascinante best-seller “A lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável”, escrito e lançado em 2007 pelo economista e doutor em matemática, o libanês Nassim Nicholas Taleb. Para Taleb, um Cisne Negro é um evento raro, imprevisível, impactante e transformador. Todos são pegos de surpresa, e precisam se adaptar à nova realidade! Além disso, os eventos chamados Cisnes Negros, tendem a ser intensos e árduos, sendo impossível calcular seu início e sua intensidade. Quando o inesperado ocorre, o frágil, com certeza quebra.

Não seria possível, por exemplo, prever que um cisne negro existisse antes de ele ter sido visto pela primeira vez pelos europeus em 1697, na Austrália. Até então, ninguém no velho continente, sabia da existência de uma espécie de cisne que não fosse branca. Eventos raros como o primeiro Cisne Negro, ocorrem com mais frequência do que imaginamos. Os Cisnes Negros são a base de quase tudo o que acontece no mundo. Não os reconhecemos antes que ocorram, porque nos limitamos a aprender somente conteúdo específico em vez de adquirir sabedoria em outras áreas do conhecimento. Concentramo-nos no que já sabemos e evitamos cada vez mais o desconhecido, rotulando e simplificando tudo. Somos, portanto, incapazes de enxergar as oportunidades, e ao contrário do que defende a maioria dos economistas, estamos constantemente à mercê do inesperado. As grandes guerras, as pestes, as grandes tragédias, o sucesso surpreendente do Google, o “11 de Setembro” e a crise global de 2008, são considerados por Taleb, como Cisnes Negros. Certamente, você não imaginaria algo como o Google antes dele existir, mas hoje, usufrui de todas suas facilidades.

Antes destes, muitos outros Cisnes mudaram a cara do mundo. Por exemplo, o transporte sobre rodas nasceu após um Cisne Negro. Em 1815, houve a erupção do Monte Tambora na Indonésia, lançando por meses, enormes nuvens de cinzas pela Ásia e Europa, impedindo a fotossíntese. O resultado não poderia ser outro que não fosse o frio, a seca, a perda de colheitas e consequentemente, a fome. Além de seres humanos, a situação vitimou animais, inclusive cavalos que foram simplesmente para a panela. Sem animais de tração, o alemão Kar von Drais teve a brilhante ideia de reinventar o celerífero, batizando-o “draisiano”, do qual originou-se a bicicleta. E dela, as primeiras motocicletas, carros, aviões e etc.

Para nos adaptarmos a vida moderna, temos que exercitar a prática da incerteza, e, em vez do comportamento usual, pânico e desespero, devemos levar em conta um bom faro por oportunidades. O mundo é dominado pelo extremo, pelo desconhecido e pelo improvável. É repleto de Cisnes Negros, e precisamos entender o que são eles para minimizar riscos e aumentar nossas chances. Para lidar com o imprevisto, é preciso que tenhamos uma estabilidade financeira que nos mantenha durante um certo período e, até mesmo, para superar a crise com as oportunidades que surgirem após o caos. Como não sabemos quais serão os Cisnes Negros futuros, devemos preparar nosso “cardápio de tempestade”. Nesta crise do Corona vírus, o Cisne Negro atual, há grandes possibilidades de um massivo desemprego, larga transformação do mercado de trabalho, e uma mudança brutal no comportamento humano com ideias e projetos inovadores. Possivelmente, haverá protecionismo no mercado de commodities, severo controle cambial do dólar e do euro, a implantação de criptomoedas pelos Bancos, os juros negativos, a extinção do dinheiro físico e um significativo aumento de impostos. Daqui em diante, deveremos olhar para os eventos “altamente improváveis” de um modo diferente, e talvez assim, possamos considerá-los com mais ênfase, minimizando ou neutralizando seus efeitos em nossas vidas ao desenvolver nossa antifragilidade.