Masoquismo coletivo

A J Marchi

Questionamentos evidentes, obviedades improváveis e banalidades incomodas. 

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Eleições! Lindo na poesia humanista, mas, na pratica, nivela por baixo a qualidade do voto que pode eleger perigosos seres desqualificados em nome da velha e maltratada Democracia. Masoquismo, no sentido extensivo do termo, refere-se também ao transtorno psicopatológico que designa o comportamento de uma pessoa que sente prazer a partir de seu próprio sofrimento. E a partir do que vejo, ao raiar de cada dia, me parece que esse sentimento deixou de ser relegado a alguns poucos para tomar vulto coletivo. Não há outra explicação para o crônico mar de mansas almas que tudo aceita sem luta, apenas em troca do pão de cada dia.

Refiro-me a atitude arbitraria e unilateral de um ocupante do m² mais caro da Justiça brasileira. A atitude beligerante em barrar o comprovante eleitoral, só vem reforçar o descrédito do sistema. Um povo que a isto aceita, de forma passiva e complacente, denota total falta de espirito patriótico, levando a crer que o título acima procede. O comprovante da urna eletrônica, é a única prova física que garante ao eleitor a eficácia de seu voto. Porém, ao que tudo indica, o eleitor prefere passar cheque em branco. Por outro lado, o fisco, leia-se o Estado, obriga o vendedor de um simples chiclete ou uma loteria, a fornecer comprovante ou nota fiscal ao comprador, mas a “exemplar” Justiça Eleitoral, o desobriga a fornecer ao eleitor o comprovante do serviço prestado, que por sua vez, contratará o servidor público “temporário” que terá o poder de governa-lo e subtraí-lo para manter financeiramente o próprio TSE.

Não é novidade alguma que o sistema em vigor, beneficia e compactua com interesses de oligarquias que se perpetuam no poder através de mecanismos como a suplência, a reeleição, a proteção judicial e partidária. Diferentemente do setor privado, o setor público faz uso de nosso dinheiro como se dele fosse para eleger seus “funcionários” para receberem depois do pleito, vultuosos “interesses” escondidos nas cuecas, malas, e também benesses em forma de emenda parlamentar. Essa é a democracia “particular” que nos vendem.

Que atitude tomaremos hoje e nas próximas eleições? Continuaremos a sair de casa como gado marcado, agora por digitais, em um dia de descanso para dar empregos a desconhecidos para que vivam as nossas custas? Que diferença há, entre os maus candidatos conhecidos, e aqueles que teremos o desprazer de conhecer? Seria, para nos fazerem crer através da estupida soberba, que o cidadão comum é um ser inferior? Porque, afinal, precisamos conviver com decepções atrás de decepções, se todos manipulam, corrompem, desviam finalidades e legislam em interesse próprio para que ao final de tudo, quando pegos, censuram, fogem ou escondem-se, como sempre acontece? Afinal, como dizia o emedebista Ulisses Guimarães: “não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública”.

O mau uso do voto por parte do eleitor, não seria o maior dos problemas! Se não fosse a má fé ou a negligência dos partidos em transformarem algo tão sério, como a escolha de quem irá nos governar, em uma brincadeira de mau gosto, não teríamos o descaso com a saúde pública. Muitos dos políticos eleitos nas últimas eleições, e que desviaram dinheiro público durante a pandemia, provam a tese de que não vieram governar. Basta fazer caber em nossas vidas o nosso orgulho como cidadãos, e não nos apequenarmos diante de pseudopolíticos que parasitam nossas instituições. A única forma de o eleitor resgatar sua honra, é não aceitar que os partidos ofereçam produtos vencidos e de má qualidade.